23. A CULTURA DO CAFÉ EM NAZARÉ, EM 1920.

A CULTURA DO CAFÉ EM NAZARÉ

1. O café, mola propulsora do desenvolvimento.
Uma deslumbrante revelação nas pesquisas da história de Nazaré Paulista:
Nosso Município, nos primórdios do século passado, foi um grande produtor de café.
Nazareth, assim como toda a região Bragantina, nas décadas de 1920, possuía grandes áreas de cafezal e eram muitos os produtores de café. E o nosso Município foi palco de um crescente desenvolvimento decorrente da cultura daquele grão.
O café era naquela época uma das maiores fontes de produção, de comércio e de geração de riqueza do Brasil. Sua produção era escoada e exportada pelo porto de Santos, transportada pela Estrada de Ferro Bragantina que fora aberta ao tráfego em 1884, e pela Estrada São Paulo Railway que ligava Jundiaí ao Porto de Santos, passando pela Capital do Estado.
Com o advento do “crack” (quebra) da Bolsa de Valores de Nova Iorque no ano de 1929, houve a Crise do Café no Brasil. As exportações retraíram, tivemos a queima do excesso de café produzido, e a falência dos exportadores e dos produtores daquele grão. Até a Estrada de Ferro Bragantina que fora construída em função do escoamento daquele produto entrou em decadência, até ser desativado.

2. A ferrovia que passaria por Nazareth
Em fins do século XIX houve um jogo de interesse entre a S P Railway e a Companhia Mogiana. Esta última projetou levar suas linhas férreas de Campinas até o litoral para o Porto de São Sebastião, passando por Amparo, por Bragança Paulista e cruzando o nosso Município de Nazareth, talvez com o mesmo trajeto da atual Rodovia D. Pedro I, passando pelo Vale do Paraíba e descendo a Serra do Mar até São Sebastião.
Entretanto, e infelizmente, esse trajeto teria que cruzar a Estrada de Ferro Bragantina, o que era impedido legalmente, fato que arquivou a pretensão e evitou a construção da Cia. Mogiana.
Nazareth perdeu assim a oportunidade de ter um terminal ferroviário, com acesso ao Vale do Paraíba e ao litoral.

3. Os Nazareanos produtores de café na década de 1920
Em 9 de dezembro de 1928 a Câmara Municipal de Nazareth publicou o lançamento da coleta de imposto para o exercício de 1929, a que estariam sujeitos os cidadãos produtores de café.
Esta relação foi publicada no Jornal “A Folha”, em sua edição nº 177, da qual reproduzimos o nome do produtor, o bairro e a quantidade estimada de pés de café.
Produtor                                                              bairro                               nº de pés de café
1. Antônio Pedroso                                                  Ribeirão Acima                   8.000
2. Ângelo de Souza Ramos                                    Ribeirão Acima                    2.000
3. Adolpho Pedroso                                                Guaxinduva                          6.000
4. Antônio Rodrigues dos Santos Sob.               Guaxinduva                          5.000
5. Amélia Ambrozina de Oliveira                        Guaxinduva                        10.000
6. Antônio Lopes da Cunha                                  Quatro Cantos                     2.000
7. Abrahão Constantino Pinheiro                        Quatro Cantos                    4.000
8. Antônio Bueno Gonçalves                                Mascate Grande                 2.000
9. Antônio Pires dos Santos                                 Mascate Grande                  2.000
10. Antônio José Mariano                                    Mascate Grande                  1.000
11. Benedito Mariano da Cunha Filho               Quatro Cantos                     2.000
12. Viúva de Benedito Mariano da Cunha        Quatro Cantos                     2.000
13. Benedito Siqueira Franco                              Quatro Cantos                     2.000
14. Benedito Bueno Pinheiro                               Mascate Grande                 1.000
15. Benedito Alves Pedroso                                  Vargem                                4.000
16. Bento Firmo de Almeida                                Guavirutuba                       2.000
17. Camilo Rodrigues de Souza                           Atibaia Acima                     2.000
18. Francisco Jorge                                                Ribeirão Acima                  2.000
19. Generoso Antônio de Moraes                        Ribeirão Acima                  5.000
20. José Francisco de Carvalho                           Mascate Grande                1.000
21. José Antônio Pires                                           Mascate Grande                1.000
22. João Antônio Pinheiro Mariano                   Cidade                               10.000
23. José Miguel                                                       Itinga                                   3.000
24. João Alves da Silva                                          Mascate                               2.000
25. José Pinheiro dos Santos                               Mascate                               2.000
26. João Batista Caraça                                         Mascate                               1.000
27. José Pinheiro de Almeida                              Guavirutuba                     10.000
28. João Gonçalves de Oliveira                           Guaxinduva                      20.000
29. José Rumith & Irmão                                     Guaxinduva                      10.000
30. José Pedroso                                                    Guaxinduva                        5.000
31. João Mariano da Cunha                                 Quatro Cantos                    1.000
32. Joaquim Mariano da Cunha                         Quatro Cantos                    3.000
33. Joaquim Antônio dos Santos                        Quatro Cantos                    1.000
34. João Antônio Gonçalves                                Quatro Cantos                    2.000
35. João Antônio Pinheiro                                   Quatro Cantos                    2.000
36. Joaquim Alves da Silva                                  Quatro Cantos                    2.000
37. José Pires de Oliveira Sobrinho                   Quatro Cantos                    3.000
38. João Alves da Cunha Pinto                           Quatro Cantos                  25.000
39. Leonel Moura                                                  Guaxinduva                         6.000
40. Lourenço Alves da Silva                                Guaxinduva                         4.000
41. Luiz Pedroso                                                    Guaxinduva                          1.000
42. Leopoldina Pedroso                                       Guaxinduva                       10.000
43. Manoela Maria do Rozário                           Mascate Grande                  1.000
44. Olympio Antônio Pinheiro                           Quatro Cantos                     1.000
45. Sebastião Rodrigues Freitas                         Quatro Cantos                     5.000

4. Curiosidades observadas:
A publicação da Câmara Municipal prescrevia que;” Os que tiverem alegações a fazer poderão dirigir-se por meio de requerimento até o fim do corrente mês (dezembro de 1928)”.
Os bairros com maior plantação eram: Guaxinduva, Mascate e Quatro Cantos.
Os maiores produtores: Antônio Pedroso, Amélia Ambrosina, João Antônio Pinheiro Mariano, José Pinheiro de Almeida, João Gonçalves de Oliveira, José Rumith e João Alves da Cunha Pinto. Eram, talvez, os maiores proprietários rurais do Município.
Embora estimados, o número de pés de café atingia um total de aproximadamente 180.000, o que demandava uma extensa área e muita mão de obra a ser utilizada para a colheita, beneficiamento e transporte.
Atualmente, não se tem indícios das áreas onde eram plantadas com cafezal, nem de terreiros e fornos para beneficiamento do produto. Desconhece-se também como foram extintas e exterminadas as lavouras nazareanas de café.
Nos tempos atuais, primeiras décadas deste século XXI, um dos únicos, senão o único cultivador de café no Município, era o Sr. Nelson Gamarra, com 50.000 mil pés de café plantados no bairro do Ribeirão Acima, sendo que sua plantação sofreu por duas vezes incêndios provocados por queda de balões, com extinção de cerca de 35.000 pés, tornando inviável a mantença da torrefação, optando pelo plantio de eucalipto e aquisição de grãos de café de outras zonas cafeeiras, e assim prosseguindo com a indústria.

5. Consequências
Com o auge do ciclo do café nas primeiras décadas do século passado os Nazareanos se empolgaram no plantio desse grão, com seus grandes lucros, e que foi chamado de “ouro negro”.
Em consequência não se dedicaram ao plantio extensivo de outras diversas culturas, como a do milho, do arroz, da cana e do feijão. Apenas cultivavam o necessário para suas sobrevivências, ou seja, a agricultura de quintal ou familiar.
Com a depressão americana, a queda da exportação, a queda nos preços e a escassez da demanda, cessaram as vendas e os lucros, e a comunidade nazareana adentrou num período de estagnação e de retrocesso no seu desenvolvimento. Houve uma reportagem do Jornal A Folha de São Paulo que descreveu a sede do Município como sendo uma “Cidade Fantasma”.
O crescimento da agricultura e da economia nazareana só foi retomado nestas últimas décadas com o plantio, cultivo e comércio do eucalipto com o fabrico da lenha e do carvão. Nada mais é plantado ou colhido no chão de Nazaré Paulista como atividade comercial. Passamos a sonhar com um futuro voltado para o turismo rural, náutico e religioso.
Oxalá tenhamos mais um ciclo de desenvolvimento para o município.

Nazaré Paulista, junho de 2016
Oscar Teresa Pinheiro do Carmo

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